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OPINIÃO - OPINION

Revolução:.

Segundo a agencia Tass, há dois dias, a 17 de Março, cerca de 200 delegados representando mais de 30 organizações politicas reuniram-se em Rumeilan, na província síria de Al-Hasakah, e proclamaram por unanimidade a criação de uma região federal no Norte da Síria. A assembleia teve por lema “Uma Síria federal e democrática – garantia da co-residencia e irmandade dos povos”. Os delegados incluíam curdos, árabes, assírios, turcomanos, circassianos e arménios, todos residentes no norte e nordeste da Síria.


Segundo a Deutsche Welle, que citava fontes do PYD (o Partido da União Democrática), as três regiões representadas na assembleia concordaram em chamar Rojava – Síria do norte à nova entidade administrativa.


Esta noticia dada por agencias tão desencontradas como a Deutsche Welle ou a Tass, mostra que:


- num cenário de guerra, já há um território onde as populações são livres de escolher que tipo de organização politica querem; e, pelos vistos, querem um governo autónomo e não burocrático


- estas decisões foram tomadas por cidadãos da Síria dentro da Síria, cujas fronteiras os delegados da assembleia de Rumeilan respeitam.


Reação:


Como reagiu a burguesia mundial, através dos seus aparelhos de estado a esta declaração? Com excepção da Rússia – a rejeição foi unânime. Mas dentro dos que rejeitam e com excepção da Turquia, a rejeição parece um tigre de papel.


Que legitimidade alegam as “potências” e os seus apêndices?


O Departamento de Estado norte-americano, através do seu porta-voz John Kirby, informou que “we do not support self-ruled, semi-autonomous zones inside Syria”. Questionado pelo jornalista Matt Lee sobre se essa posição não implicava reconhecer o governo de Damasco – que os Estados Unidos se esforçam por derrubar desde 2011 - , Kirby limitou-se a dizer que os Estados Unidos estão à espera do … bom governo da Síria e que entretanto não reconhecem a autodeterminação de ninguém. Isto é, o governo americano não quer saber do que diz o governo atual da Síria e muito menos os cidadãos da Síria: espera apenas pelo que o “seu” futuro governo da Síria poderá dizer. Mas as declarações de Kirby valem pouco: poucos dias antes, um seu colega de governo mais credenciado, o Secretario da Defesa Ashton Carter já tinha elogiado as forças do YPG ( o exército de Rojava) que “have proven to be excellent partners of ours on the ground”. Isto é, os EU sabem que no terreno o YPG tem uma posição consolidada, que uma região autónoma dentro da Síria até lhes é útil para diminuir o governo de Assad (que a aliança russa cimentou) e que o YPG faz uma guerra a custo zero para os contribuintes americanos contra o ISIL, agora descartável.


O governo russo, cujos interesses na Síria estão salvaguardados com a manutenção do regime de Assad foi, até agora, a única potencia a não condenar a região de Rojava. Já no dia 10, um deputado russo (S. Ryabakov) tinha lançado a ideia da Republica Federal Síria como um balão de ensaio, mostrando assim que o governo russo sabia e aprovava o que estava em preparação. Não é difícil ver nesta adesão da Rússia ao federalismo (na Síria, claro), como a região autónoma de Rojava, só por existir, contribui mais para a desintegração do regime turco que qualquer nova instalação de mísseis balísticos que Moscovo instalasse direcionada para Ankara.


As posições convergentes, ainda que não pareçam, dos EUA e da Rússia mostram assim que, a este respeito, as conversações de Genebra, para já, estão feitas mesmo antes de começarem: é impossível que o governo de Damasco vá contra qualquer posição russa e portanto, tudo somado, EUA, Rússia e Assad vêem-se obrigados, para já, a dar uma chance a Rojava. Com o que diz a oposição síria (os “rebeldes moderados” do género da Jaish al Islam ou da Frente do Levante) pode bem o YPG. Note-se de passagem que a unanimidade da condenação feita por todas forças anti-regime da Síria à decisão unânime da assembleia de Rumeilan - que nada até agora mostrou que não foi democrática – diz alguma coisa sobre a “democracia” dos “rebeldes moderados”.


O único poder reacionário que conta é a da Turquia e do seu apêndice União Europeia. Desde há quase cem anos que o imperialismo ocidental condenou a república turca à autocracia para sobreviver às eventuais agressões externas, reais ou imaginadas. O Turkish deep state não pode coexistir com uma verdadeira democracia e portanto, está obrigado a combater a democracia igualitária de Rojava para sobreviver. Desde Novembro ultimo, contra todas as expectativas, não está isolado. Graças á chantagem dos refugiados que faz sobre a Europa, Ankara vai embolsar 3 biliões de euros e um cheque politico-militar em branco. Com as costas quentes, o governo turco já tinha conseguido excluir todas as forças de Rojava das conversações de Genebra (para Ankara, são os “terroristas” curdos) e tem vindo a atuar militarmente no norte da Síria e do Iraque, ao abrigo do mais completo silencio euro-americano. Agora, com o acordo assinado ontem em Bruxelas, o regime turco começou febrilmente o desconto do cheque – bombardeamentos diretos da aviação turca sobre o Iraque, anúncios públicos de nova legislação repressiva interna, ameaças diretas à União Europeia caso esta ainda queira tomar posição própria na “questão curda”, (ver as declarações de Erdogan ontem em Çanakale,) etc., etc.


No entanto, os cães ladram e a caravana está a passar.


Saudemos Rojava, a região democrática e federal do Norte da Síria!